Este artigo apresenta o trabalho conjunto entre o Autistão e o MNPR para dar visibilidade e garantir direitos a pessoas autistas em situação de rua.
No mesmo movimento, relatamos o Seminário Internacional “População em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já!” (Fiocruz Brasília, 22–23/10/2025), onde entregamos o projeto à Ministra dos Direitos Humanos e dialogamos com gestores públicos, pesquisadores e movimentos sociais.
Parte A — Nosso projeto Autistão–MNPR (‘Zero Autistas nas Ruas’)
Vídeo introdutório: projeto Autistão–MNPR e a Embaixada do Autistão em Brasília
Depois da realização do seminário, foi gravado na Embaixada do Autistão em Brasília um vídeo de apresentação do projeto comum “Zero Autistas nas Ruas”, que tem como objetivo apoiar pessoas autistas em situação de rua, em cooperação entre a Organização Diplomática do Autistão e o MNPR.
O vídeo foi realizado pelo representante do MNPR no Rio de Janeiro, nas instalações da Embaixada, e apresenta tanto o conceito do projeto quanto uma breve introdução ao espaço da Embaixada do Autistão e comentários sobre o Seminário Internacional da Fiocruz. É uma forma de contextualizar visualmente o diálogo e o compromisso entre as duas organizações.
O vídeo acima serve como introdução ao conteúdo apresentado neste relato, conectando a visão institucional do projeto Autistão–MNPR com as observações feitas durante o seminário relatado a seguir.
Documento completo do projeto Autistão–MNPR
Esses documentos foram elaborados em cooperação direta entre a Organização Diplomática do Autistão e o Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR), com o objetivo de orientar políticas públicas baseadas em acessibilidade, direitos humanos e participação autista.
MNPR como parceiro natural do Autistão
O MNPR reúne legitimidade social, capilaridade e escuta direta da população em situação de rua. O Autistão aporta conhecimento específico sobre acessibilidade para pessoas autistas — inclusive as invisibilizadas nas ruas —, além de propostas concretas de políticas públicas. Em conjunto, é possível identificar, acolher e proteger pessoas autistas em situação de rua, reduzindo o sofrimento gerado pela falta de consideração ao autismo e construindo caminhos efetivos em moradia, saúde, trabalho e convivência comunitária.
Parte B — Seminário Internacional “População em Situação de Rua (Fiocruz Brasília, 22–23/10/2025): observações e registros
Como isso se conecta ao nosso projeto: o seminário foi a janela institucional para apresentar o dossiê, testar a recepção do tema “autismo–rua” e construir uma rede de contatos para implementação.
Seminário: Introdução e motivação
Relato institucional de um representante da Organização Diplomática do Autistão, participante convidado/observador, em articulação com o MNPR (Movimento Nacional da População em Situação de Rua).

Nos dias 22 e 23 de outubro de 2025, um representante da Organização Diplomática do Autistão participou, como observador e ao lado de um representante do MNPR – Movimento Nacional da População em Situação de Rua, do Seminário Internacional “Pessoas em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já!”, no auditório da Fiocruz Brasília (fiocruzbrasilia.fiocruz.br), sede pública com placas oficiais de inauguração presidencial, vinculada ao SUS e a órgãos federais.


Meses antes, Autistão e MNPR identificaram e registraram a interseção entre autismo e situação de rua — tema amplamente ignorado, com muitos autistas vivendo nas ruas sem reconhecimento. Elaborou-se conjuntamente o documento-projeto para enfrentar essa problemática; a presença no seminário teve por foco apresentar a pauta, ouvir e abrir diálogo com atores públicos e sociais.
Local, organização e participação
O evento foi organizado pelo coletivo Trilhas de Cuidado nas Ruas (trilhasdecuidadonasruas.ensp.fiocruz.br), com presenças institucionais como o Ipea e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), entre outras. Foram duas jornadas completas (aprox. 8h–18h), com pausas para refeições.


O seminário foi aberto ao público, com inscrição prévia; para pessoas em situação de rua, houve facilidades para participação mesmo sem inscrição (coerente com o propósito). As refeições foram gratuitas para todos, com prioridade de fila para a população em situação de rua (elas comiam antes). No primeiro dia, havia relativamente poucas pessoas em situação de rua; no segundo, compareceram dezenas, fortalecendo diversidade e representatividade.
Ambiência, acessibilidade e clima humano
Clima respeitoso, acolhedor e solidário — a conhecida “magia do Brasil”: oradores(as) muito aplaudidos(as) e público diverso (pesquisadores, docentes, representantes públicos, militantes e pessoas em situação de rua). A acessibilidade sensorial foi adequada para pessoas autistas: nem muito quente nem frio; sem som excessivo.
Uma cena marcante: um jovem em situação de rua acomodou-se discretamente, com todos os pertences, no alto do auditório — transpondo a rua para dentro do espaço, sem bloquear passagens. Em vez de incômodo, trouxe autenticidade ao propósito do encontro (inclusive com o odor natural de roupas não lavadas há algum tempo), reforçando a coerência entre tema e prática.
Dois videos improvisados
Durante o seminário, ocorreram dois pequenos momentos musicais improvisados, fora da programação formal. Esta primeira gravação mostra um deles — um instante simples e tocante, iniciado quando alguém pegou um violão e começou a cantar.
Pessoas em situação de rua acompanham a canção, triste e ao mesmo tempo cheia de ternura, cantando com sorrisos e leveza, lembrando a dignidade e a esperança que sobrevivem mesmo nas condições mais difíceis.
A câmera percorre o espaço de forma respeitosa, evitando se aproximar demais das pessoas em situação de rua, de modo a preservar sua privacidade e dignidade.
Em seguida, aparece uma vitrine do café da Fiocruz, onde se lê claramente o nome da instituição. Logo depois, surge um homem em situação de rua, visto rapidamente atrás de um pilar. Ele parece um pouco perdido e aéreo, caminhando sozinho, num ritmo disperso, como se estivesse no próprio mundo.
Logo adiante, vemos Anderson Miranda, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, de costas, usando chapéu bege e colete bege do MDHC, conversando com outra pessoa. A câmera então continua seu movimento em direção ao auditório, mostrando o letreiro da Fiocruz, a placa de inauguração do prédio e um breve trecho da conferência em espanhol.
Nas duas filmagens, nota-se um contraste visível: pessoas em situação de rua costumam usar chinelos (flip-flops), enquanto as demais usam sapatos de melhor qualidade — algo que provavelmente se explica pelo fato de que quem dorme na rua frequentemente tem seus calçados furtados se forem bons.
Há, por vezes, entre algumas pessoas em situação de rua, a sensação sutil de fazerem parte de um universo constantemente estudado e debatido, o que pode gerar certo desconforto. Em um momento do seminário, inclusive, a palavra “cobaia” foi pronunciada — de modo até afetuoso, mas revelador —, ecoando o recado de Jefferson: “Parem de nos estudar e nos ajudem.” Isso dá um tom ligeiramente surreal, porque, enquanto se discutem políticas e pesquisas sobre a população de rua, parte dessa própria realidade está ali presente, convivendo no mesmo espaço. Ainda assim, a boa-fé, o respeito e a intenção genuína de todas e todos — pessoas em situação de rua, pesquisadoras(es), professoras(es) e representantes do governo — são evidentes em todo o ambiente.
A gravação termina com uma imagem simbólica: pertences cuidadosamente cobertos, deixados num canto do auditório — um lembrete silencioso de que o tema do seminário não é apenas teórico, mas parte da realidade viva que todos e todas estavam ali tentando compreender e transformar.
Este segundo vídeo mostra outro momento musical aparentemente improvisado, desta vez dentro do auditório. É algo muito característico dos eventos no Brasil: ao final das conferências, o clima se transforma em celebração.
Todos participam — batendo palmas, cantando e sorrindo. Nos gradis do auditório, vê-se claramente pessoas de todos os perfis: algumas muito bem vestidas, outras de bermuda e chinelo, provavelmente em situação de rua. E o mais marcante é que ninguém parece notar a diferença — o convívio é natural, leve e igualitário.
Um detalhe surpreendente liga este vídeo ao anterior: entre as pessoas que cantam e animam a plateia, há um homem em situação de rua sobre o palco, conduzindo a música com entusiasmo e carisma. Observando com atenção, percebe-se que é a mesma pessoa que, no primeiro vídeo, aparecia do lado de fora, passando atrás de um pilar, parecendo perdido, aéreo, talvez desconectado do entorno.
Reconhece-se facilmente pela cabeleira e pelas faixas amarelas de sua camiseta.
Essa coincidência convida a reflexões importantes.
Primeiro: talvez se trate de uma pessoa autista, o que explicaria aquele ar de quem vive “no próprio mundo” — um traço comum no autismo, que não impede absolutamente que alguém seja também artista, cantor, comunicador ou animador.
Segundo: é uma lembrança poderosa de que as aparências enganam — alguém que num instante parece frágil ou desorientado pode, no seguinte, se tornar o centro da alegria coletiva, inspirando e unindo todas as pessoas ao redor.
Essa transformação, vista em poucos segundos de vídeo, expressa de forma simbólica o que o seminário inteiro tentava dizer: toda pessoa em situação de rua é, antes de tudo, um ser humano completo, com talentos, emoções e dignidade — alguém que pode brilhar quando tem espaço para existir plenamente.
Autoridades presentes e entrega de documentos
No primeiro dia, esteve presente a Ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, muito aplaudida.

A Ministra Macaé Evaristo, falando
O representante do Autistão, ao lado do colega do MNPR, entregou pessoalmente o documento sobre a interseção autismo–rua; a Ministra pareceu interessada no material. Recordou-se que, em 14/11/2024, durante o G20 Social no Rio de Janeiro, ela havia recebido um dossiê volumoso do Autistão (entregue em mãos, à sua saída do Museu do Amanhã). A Ministra não se lembrava disso; ainda assim, ver novamente o logotipo do Autistão pode favorecer reconhecimento institucional e continuidade do diálogo.
No segundo dia, compareceu a Secretária-Executiva do MDHC (nº 2 da pasta), reforçando o caráter público e oficial dos trabalhos.


Diálogos, reações e contatos estabelecidos
As principais conversas deram-se fora das mesas (intervalos/corredores). O Autistão expôs de forma clara a pauta autismo–situação de rua. As reações foram educadas, interessadas e encorajadoras; muitos reconheceram tratar-se de um tema importante e pouco abordado e forneceram contato, o que indica interesse real.
- Anderson Miranda (MDHC, vice-presidente CIAMP-Rua): muito solícito; contato compartilhado.
- Joana Darc Bazílio (presidente CIAMP-Rua).
- Gustavo Matta (docente Fiocruz): receptivo; propôs encontro posterior.
- Marco Natalino (Ipea): muito interessado nas explicações sobre autismo; contato compartilhado.
- Cristiane Xavier (Defensora Publica RJ / Nudedh): jà nos encontramos num evento da “Pop Rua” no ano passado no Rio de Janeiro.
- Luciana Ortiz (juíza federal CNJ / PopRuaJud): interesse em transições pós-prisão; o Autistão dispõe de exemplos da França, e falamos também da acessibilidade da justiça para autistas.
- Phillippe Leite (Banco Mundial): esclareceu uma demanda de contribuição feita ao Autistão pelo Banco; contato compartilhado.
- E mais pessoas (sem sempre lembrar o nome)
“Arte no Trecho!”


Depoimento: “Meu nome é Jeferson, tenho 28 anos, sou de Porto Alegre – RS. Estou há pouco tempo na situação de rua e não vou ficar muito tempo, já estou pra sair, porque sei que Deus tem um propósito pra minha vida. Hoje é dia 1 de outubro de 2025, aniversário do meu filho Jorge Vicente. Eu sinto muita saudade dele, por isso fiz esses corações partidos. Criatividade pra mim é ser diferente das coisas iguais. Eu me considero criativo, de certa forma. A pop rua precisa ser criativa, senão vira lanche. Eu não gostaria que os pesquisadores do Seminário Trilhas soubessem mais nada sobre nós, eu só queria que nos ajudassem.”


Depoimento: “Meu nome é Isaías, eu venho de Ilha de Itaparica, venho de Salvador. Sou artesão de rua, também gráfico, né. Então eu resolvi fazer essa arte aqui porque me estimulou, é uma ocupação, né, uma sinceridade que nos leva a algo de entendimento. Então eu resolvi fazer eu, porque ao invés de fazer outra pessoa, eu fico reconhecido, enquanto pessoa. Para que eles me observem com bons olhos. Então eu resolvi entrar nessa arte para que eu possa me apresentar ao público de alguma maneira.”

Autismo invisível nas pautas de rua: constatação, impacto e integração necessária
No Seminário Internacional “População em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já!” (22–23/out), o tema autismo esteve quase* ausente das falas públicas analisadas; a pauta foi abordada diretamente apenas pelo representante do Autistão, em interações paralelas.
* Houve uma referência ao “TEA” (Transtorno do Espectro Autista) na fala de um colega do MNPR, mencionada com boa intenção no contexto da saúde mental. Ainda assim, essa abordagem, voltada para o campo clínico, não foi suficiente para abranger a complexidade do autismo nem para introduzir a dimensão de acessibilidade necessária — especialmente a atitudinal, sensorial e comunicacional.
Obs.: Em matéria de autismo, a confusão onipresente que consiste em reduzir o autismo apenas aos aspectos problemáticos específicos do autismo (ou, mais precisamente, às consequências da falta de consideração adequada do autismo pelo sistema socioadministrativo) é o problema número 1 — como explicamos à especialista em autismo da OMS, que tendeu a concordar.
Como verificamos
- Corpus: transcrições integrais de todas as mesas e falas (manhã e tarde, 22–23/out).
- Busca: “autismo”, “autista(s)”, “neurodiversidade”, “neurodivergente(s)”, “acessibilidade para autistas” e menções equivalentes.
- Critério: ocorrência explícita ou implícita (ex.: protocolos, metas, orçamento, serviços dedicados).
O que encontramos
- Nenhuma ocorrência dos termos acima nas plenárias analisadas. (Mas pelo menos uma menção do “TEA”, tema relacionado ao autismo).
- Menções genéricas a “acessibilidade/deficiência” sem vínculo com autismo ou neurodiversidade.
- Temas dominantes (sem interface autista): ADPF 976; Plano Ruas Visíveis; governança interfederativa; Moradia Primeiro; violência institucional; documentação/identidade; saúde/assistência; trabalho e renda; gênero e raça.
Por que isso importa
A ausência de autismo nas políticas de rua reproduz invisibilidade e alimenta uma cadeia de exclusões que pode levar à rua: incompreensão familiar → barreiras escolares → obstáculos no trabalho/serviços → perda de renda → impossibilidade de moradia → rua. Para autistas, isso produz dupla discriminação: ser autista e estar em situação de rua.
O que integrar nas políticas (sem medicalizar)
- Acessibilidade comunicacional: linguagem direta, instruções passo-a-passo, previsibilidade de fluxos, mediação escrita/visual nos atendimentos.
- Acessibilidade atitudinal: escuta paciente, não confrontativa, tempo ampliado de atendimento, respeito a modos de comunicação diferentes.
- Acessibilidade sensorial e ambiental: pontos de atendimento com baixa sobrecarga sensorial (ruído, cheiros intensos, luz), espaços de espera tranquilos e previsíveis.
- Procedimentos inclusivos SUS–SUAS–Habitação: entrada coordenada, gestão de casos e baixos requisitos (não condicionar atendimento a documentação completa; oferecer apoio para obtê-la).
- Moradia Primeiro com suporte específico: acompanhamento que considere hiperfoco, rotinas, sensorialidade e comunicação preferida do morador.
- Formação de equipes: conteúdos sobre autismo para eCR/APS, assistência, abordagem social, acolhimento e segurança pública (enfoque antiviolência e antiaforofobia).
Indicadores e metas sugeridos
- Processo: % de equipes (SUS/SUAS) capacitadas em autismo; % de unidades com protocolo de acessibilidade sensorial/comunicacional implementado.
- Acesso: tempo mediano da 1ª resposta para autistas em rua; % de atendimentos com mediação escrita/visual; % de cadastros concluídos com apoio.
- Resultado: % de estabilização habitacional em 6/12 meses; redução de no-shows após adaptações; satisfação do usuário autista (escala simples).
- Financiamento: linha orçamentária identificável para acessibilidade autista em rua (formação, adaptações ambientais, materiais, apoio de pares).
Identificação responsável
“Identificar autistas” não é aplicar checklists rasos. Exige observação qualificada, leitura de micro-sinais e conhecimento da natureza do autismo, evitando rótulos indevidos e estigmas. Quando houver indício, ofertar acessibilidade sem exigir rótulo formal para garantir direitos.
Distinção essencial: autismo (natureza) ≠ transtornos do autismo. Essa diferença é fundamental para políticas não-defectológicas. Entenda aqui
Transmissões e vídeos oficiais do evento
As gravações completas do Seminário Internacional “Pessoas em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já!” estão disponíveis no canal oficial da ENSP/Fiocruz no YouTube. Essas publicações registram as mesas e falas dos dois dias de atividades, incluindo as participações das autoridades, pesquisadores e representantes da população de rua.
Os vídeos são fontes valiosas para contextualizar as observações e análises aqui relatadas, permitindo ver a atmosfera humana, as reações do público e a diversidade das falas.
Seminário Internacional Pessoas em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já! (22/10) – Manhã
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Seminário Internacional Pessoas em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já! (22/10) – Tarde
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Trecho que menciona o “TEA” (Transtorno do Espectro do Autismo, que não é o autismo em si mas so um aspecto do autismo)
O “TEA” foi mencionado com boa intenção no contexto da saúde mental. Ainda assim, essa abordagem, voltada para o campo clínico, não foi suficiente para abranger a complexidade do autismo nem para introduzir a dimensão de acessibilidade necessária — especialmente a atitudinal, sensorial e comunicacional.
Obs.: Em matéria de autismo, a confusão onipresente que consiste em reduzir o autismo apenas aos aspectos problemáticos específicos do autismo (ou, mais precisamente, às consequências da falta de consideração adequada do autismo pelo sistema socioadministrativo) é o problema número 1 — como explicamos à especialista em autismo da OMS, que tendeu a concordar.
Seminário Internacional Pessoas em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já! (23/10) – Manhã
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Seminário Internacional Pessoas em Situação de Rua: cuidado integral e direitos já! (23/10) – Tarde
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Links úteis
- Trilhas de Cuidado nas Ruas: trilhasdecuidadonasruas.ensp.fiocruz.br
- Fiocruz Brasília: fiocruzbrasilia.fiocruz.br
- Ipea: ipea.gov.br
- MDHC: gov.br/mdh
Reflexões finais e terminologia
As observações e reflexões apresentadas a seguir não têm caráter de crítica, acusação ou certeza. São apenas hipóteses e percepções a posteriori, construídas a partir da escuta e da experiência durante o seminário e no contato com o tema. O objetivo é contribuir de forma respeitosa para o debate sobre políticas públicas e inclusão social.
Percebe-se que o Brasil conta com pesquisas e ações significativas voltadas à população chamada de “em situação de rua”. Essas iniciativas demonstram comprometimento institucional e uma preocupação legítima com a dignidade e os direitos dessas pessoas. As pesquisas, certamente, têm a função de orientar as autoridades públicas e de permitir uma compreensão mais detalhada dos fenômenos sociais, para que o Estado possa agir com maior precisão e eficácia.
Mesmo assim, alguns participantes do evento reconheceram que, apesar dos esforços e recursos aplicados, a população de rua segue aumentando. Essa constatação convida à reflexão sobre as limitações das abordagens teóricas e sobre a necessidade de fortalecer o vínculo direto com as pessoas afetadas. Também se pode levantar, com toda a cautela, uma hipótese sensível: em determinados contextos, o aumento das medidas assistenciais — como abrigos, alimentação gratuita ou programas emergenciais — pode, de forma não intencional, reduzir a pressão de saída das ruas. Essa ideia não pretende criticar as políticas existentes, que são essenciais, mas apenas sugerir uma análise equilibrada entre ajuda imediata e soluções estruturais, como moradia, emprego e acessibilidade social.
Outra reflexão importante diz respeito à linguagem institucional. No Brasil, utiliza-se a expressão “pessoa em situação de rua”, que buscou substituir a antiga “população de rua”, considerada estigmatizante. Essa mudança representa um avanço linguístico, pois evita a impressão de que se trata de um grupo fixo e permanente. Ainda assim, a expressão “em situação de rua” pode, involuntariamente, dar a entender que essas pessoas pertencem a uma categoria social estável ou natural, como se viver na rua fizesse parte de sua identidade.
Também merece atenção a própria palavra “população”, que causa certo desconforto por transmitir a ideia de um grupo homogêneo, quase como uma comunidade ou povo dotado de identidade própria e automática solidariedade interna. Quando se fala em “população de rua” ou mesmo “população em situação de rua”, corre-se o risco de transformar uma condição social em pertencimento, como se quem passa por essa realidade se tornasse membro de um “grupo” à parte — uma espécie de categoria social fixa, um “clube dos esquecidos”, ainda que involuntariamente.
Essa forma de nomear pode acabar diluindo a individualidade de cada pessoa e reforçando estigmas. Do ponto de vista mais humano e civil, é importante recordar que não se trata de uma população distinta, mas de cidadãos e cidadãs que, por diversas razões, se encontram sem abrigo ou sem moradia. Cada um possui sua própria história, e não necessariamente partilha de uma identidade coletiva.
O uso do termo “população”, além disso, pode soar redutor e estigmatizante, pois tende a confinar os indivíduos e suas singularidades dentro de uma comunidade à qual não escolheram pertencer. A maioria das pessoas que acaba nas ruas não o faz por opção; trata-se de uma circunstância de exclusão, não de adesão a um grupo social. No entanto, ao rotulá-las como “população de rua”, a linguagem as transforma em membros de um coletivo forçado, o que é injusto e impreciso.
Para efeito de comparação, pode-se notar que a sociedade evita empregar a palavra “população” em outros contextos sensíveis: não se fala “população homossexual”, “população estrangeira”, “população judaica” ou “população de origem africana”. Em todos esses casos, tal formulação seria percebida como discriminatória ou redutora. Por que, então, se normalizou dizer “população de rua”? Essa expressão parece supor a existência de um segmento fixo da sociedade que pertenceria às ruas — uma ideia que, além de linguística e logicamente equivocada, contradiz o princípio da cidadania universal.
Tal reflexão reforça a importância de rever a terminologia oficial e adotar expressões mais neutras e humanas — como “cidadãos sem abrigo” ou “pessoas temporariamente sem moradia” — que descrevem uma situação transitória, e não uma identidade social. Essa abordagem reconhece que cada ser humano, independentemente de sua condição momentânea, permanece um cidadão com direitos e dignidade.
Essas considerações finais pretendem apenas abrir espaços de diálogo e reflexão construtiva, na esperança de que a terminologia, as pesquisas e as ações públicas possam continuar evoluindo em direção a uma sociedade verdadeiramente acessível e inclusiva — para todos, inclusive para as pessoas autistas que permanecem invisíveis nesse contexto.
