Em 10 de junho de 2026, a Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública sobre o papel do esporte e das atividades físicas na vida das pessoas com síndrome de Down e das pessoas autistas. Acompanhando a audiência por meio de seu representante institucional, a Organização Diplomática do Autistão viu nesse debate um ponto de partida concreto para refletir sobre acessibilidade autística, barreiras sociais e a possibilidade de um futuro Plano Nacional do Autismo baseado na acessibilidade.

No dia 10 de junho de 2026, a Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados realizou a audiência pública intitulada “Esporte: Síndrome de Down e Transtorno do Espectro Autista”, no Anexo II, Plenário 04, em Brasília.
O vídeo oficial completo da audiência está disponível no canal da Câmara dos Deputados no YouTube: Esporte: Síndrome de Down e Transtorno do Espectro Autista — 10/06/2026.
A audiência foi realizada em atenção a requerimento do deputado Danrlei de Deus Hinterholz, do PSD-RS, com o objetivo de discutir o papel da prática esportiva no desenvolvimento de pessoas com síndrome de Down e pessoas autistas, bem como refletir sobre políticas públicas, formação profissional, saúde, educação, inclusão e acesso ao esporte.
O representante da Organização Diplomática do Autistão esteve presente em razão da relação direta do tema com o autismo, a acessibilidade, as políticas públicas e a necessidade de uma compreensão mais ampla da participação das pessoas autistas na sociedade brasileira.
Esta audiência pode ser compreendida como uma importante porta de entrada para um trabalho mais amplo sobre esporte, atividades físicas, autismo, síndrome de Down e acessibilidade. O tema permite abordar tanto os benefícios concretos da prática esportiva quanto as barreiras que impedem muitas pessoas de acessar atividades físicas, esportes, clubes, piscinas, academias, escolas, projetos comunitários e espaços de convivência.
Mais do que uma simples discussão sobre “inclusão pelo esporte”, a audiência mostrou que o esporte pode revelar questões muito mais profundas: a maneira como a sociedade compreende a deficiência, a forma como organiza seus ambientes, a importância da formação profissional, a diferença entre programas especializados e acessibilidade geral, a dependência de famílias que dispõem de tempo, informação, recursos e redes de apoio, e o risco de valorizar pessoas com deficiência apenas quando elas se tornam exemplos extraordinários de superação.
1. Um ponto de partida: esporte e atividades físicas, não apenas competição
Antes de analisar as intervenções, é importante fazer uma distinção conceitual.
O tema não deve ser limitado ao “esporte” em sentido estreito, como competição, rendimento, campeonatos, medalhas ou alto desempenho. É mais adequado falar também de atividades físicas, práticas corporais, movimento, exercícios, brincadeiras, lutas, danças, caminhadas, natação, jogos, artes marciais, musculação, atividades individuais e coletivas.
Essa ampliação é especialmente importante no caso das pessoas autistas. Para algumas delas, o esporte coletivo pode ser muito positivo. Para outras, o excesso de interação social, ruído, imprevisibilidade, contato físico ou competição pode ser difícil ou mesmo desagradável. Isso não significa que a atividade física não seja importante. Significa apenas que o acesso precisa respeitar diferentes formas de participação.
O esporte pode favorecer a socialização, mas a socialização não deve se transformar em uma obrigação universal. Algumas pessoas autistas podem desejar convívio, equipe e grupo. Outras podem preferir uma prática individual, previsível, silenciosa, técnica, repetitiva ou corporalmente reguladora. Ambas as possibilidades devem ser respeitadas.
O ponto central é este: a pessoa não precisa provar que o esporte vai melhorá-la para ter direito de acessá-lo. O esporte e a atividade física fazem parte da vida comum. Por isso, o acesso deve ser reconhecido como direito, não como prêmio, favor, tratamento ou recompensa.
2. Intervenção de Danrlei de Deus Hinterholz: o esporte como pauta pública
O deputado Danrlei de Deus Hinterholz abriu a audiência explicando que o objetivo era debater o papel da prática esportiva no desenvolvimento de pessoas com síndrome de Down e pessoas com transtorno do espectro autista.
Sua trajetória como ex-atleta e parlamentar ligado ao esporte deu à audiência um caráter especial. O tema não foi tratado apenas como uma questão assistencial ou médica, mas como uma questão esportiva, social, educacional e política.
Durante a condução da audiência, Danrlei ressaltou diversas vezes a importância de formar profissionais de Educação Física, ampliar programas, apoiar iniciativas e fazer com que o esporte chegue às pessoas que precisam dele. Também destacou que aquele momento poderia ser uma semente para ações maiores.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
A abertura da audiência confirma um ponto importante: o esporte pode ser um caminho concreto para discutir políticas públicas de forma menos abstrata.
Quando se fala de acessibilidade para pessoas autistas, muitas vezes a discussão parece teórica. Mas no esporte as barreiras aparecem de forma muito concreta: ruído, regras implícitas, falta de mediação, ausência de profissionais preparados, ambientes não adaptados, receio das famílias, falta de programas, ausência de acesso a clubes e espaços comuns.
Por isso, o esporte pode funcionar como um laboratório da acessibilidade. Ele permite ver claramente a diferença entre “criar algumas vagas especiais” e transformar os espaços para que eles sejam mais acessíveis de modo geral.
Essa distinção é central para a Organização Diplomática do Autistão. Não basta criar exceções. É preciso corrigir os ambientes, as atitudes e os sistemas que produzem a exclusão.
3. Intervenção de Fábio Augusto Lima de Araújo: Ministério do Esporte, TEAtivo e Vencer pelo Esporte



O primeiro expositor foi Fábio Augusto Lima de Araújo, secretário da Secretaria Nacional de Paradesporto do Ministério do Esporte.
Sua intervenção foi importante porque apresentou o quadro institucional das ações federais relacionadas ao paradesporto, ao TEA e à atividade física para pessoas com deficiência.
Ele começou lembrando que o esporte é um direito social, previsto no arcabouço jurídico brasileiro, incluindo a Constituição Federal, a Lei Brasileira de Inclusão e a Lei Geral do Esporte. Em seguida, destacou que a Secretaria Nacional de Paradesporto tem como objetivo democratizar o acesso da pessoa com deficiência à atividade física regular, ao exercício físico e ao esporte.
Um ponto especialmente importante foi a distinção feita por ele entre acesso ao esporte e alto rendimento. Segundo sua explicação, o objetivo principal da Secretaria Nacional de Paradesporto não é formar atletas de alto rendimento. O alto rendimento pode existir, mas é uma escolha pessoal do atleta. A política pública não deve exigir que a pessoa com deficiência busque esse caminho.
Essa afirmação é muito relevante, pois evita uma armadilha frequente: só valorizar a pessoa com deficiência quando ela se torna campeã, medalhista ou exemplo de superação. O direito ao esporte deve existir também para a pessoa que quer apenas nadar, caminhar, brincar, fazer exercício, experimentar uma atividade, melhorar sua saúde ou simplesmente se sentir bem.
Fábio apresentou também o programa TEAtivo, voltado a crianças e jovens com TEA, com o objetivo de favorecer o desenvolvimento global por meio da atividade física. Além disso, mencionou o Guia de Atividade Física para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Alagoas.
O secretário também apresentou o programa Paradesporto Brasil Mais Acessível e o programa Vencer pelo Esporte, que articula o Ministério do Esporte, o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação, com a inserção da prática esportiva nos Centros Especializados em Reabilitação do SUS.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
A intervenção de Fábio confirma vários pontos importantes.
Primeiro, confirma que o esporte deve ser tratado como direito e não como privilégio. Segundo, mostra que o Estado brasileiro já possui iniciativas setoriais relevantes voltadas ao TEA, ao paradesporto e à formação profissional. Terceiro, demonstra que o tema exige articulação entre esporte, saúde e educação.
Isso converge com a visão da Organização Diplomática do Autistão segundo a qual a acessibilidade autística não pode ficar restrita a um único ministério, setor ou serviço. O autismo atravessa a escola, a saúde, o esporte, a cultura, a justiça, o transporte, a administração pública e a vida cotidiana.
Ao mesmo tempo, essa intervenção mostra uma necessidade adicional: os programas especializados são úteis, mas não bastam. Eles devem ser ligados a uma estratégia mais ampla de acessibilidade geral. O objetivo não deve ser apenas criar programas separados para pessoas autistas ou pessoas com síndrome de Down, mas tornar os ambientes comuns mais acessíveis sempre que possível.
O Guia de Atividade Física para Pessoas com TEA é uma ferramenta importante. Porém, do ponto de vista conceitual, ainda permanece dentro da terminologia clássica “transtorno”, “sintomas” e “intervenção”. A Organização Diplomática do Autistão considera útil aproveitar tais instrumentos, mas também insiste na necessidade de distinguir a natureza autística, como variação humana, dos transtornos, dificuldades e sofrimentos muitas vezes produzidos ou agravados por ambientes inadequados.
4. Intervenção de Pedro Lucas Costa: o estudante autista não precisa parecer menos autista para participar

Uma das intervenções mais importantes para a reflexão sobre autismo foi a de Pedro Lucas Costa, professor e pesquisador ligado ao Núcleo de Autismo e Neurodiversidade da Universidade de Brasília e à especialização em Autismo, Educação, Inclusão, Aprendizado e Desenvolvimento da Unijuí.
Desde o início, sua fala deslocou a discussão para um ponto essencial: o estudante autista não precisa provar que merece participar do esporte. O esporte é um direito. A pessoa autista não deve precisar apresentar condições prévias de normalidade, conformidade ou desempenho para poder participar.
Essa afirmação é fundamental. Muitas vezes, na prática, a inclusão é condicionada: a pessoa pode participar se não incomodar, se acompanhar o ritmo, se obedecer às regras implícitas, se aceitar o ambiente como ele é, se suportar o ruído, se controlar suas reações, se parecer menos autista. Pedro Lucas questionou justamente essa lógica.
Ele perguntou de que esporte estamos falando: um esporte que acolhe a diferença ou um esporte que exige conformidade; um esporte aberto às diferenças ou um esporte que condiciona a participação a uma aparência superficial de normalidade.
Essa pergunta é decisiva. O problema não é apenas “colocar” uma pessoa autista em uma aula de educação física, em uma quadra ou em um projeto esportivo. A questão é saber se o ambiente está disposto a reconhecer sua forma própria de participar, comunicar-se, perceber e aprender.
Pedro Lucas também afirmou que o problema não está primordialmente no corpo, na linguagem ou na forma de participação da pessoa autista. O problema está nas condições sociais, pedagógicas e relacionais que impedem sua participação e seu desenvolvimento.
Esse deslocamento é muito próximo do modelo social da deficiência. Em vez de colocar a falta na pessoa, ele aponta para as barreiras criadas pelo ambiente. Quando o estudante não acompanha o ritmo esperado, talvez o problema esteja na mediação desse ritmo. Quando se comunica de modo diferente, talvez o problema esteja nas formas de comunicação disponíveis. Quando possui outra organização sensorial, talvez o problema esteja na falta de previsibilidade, estrutura e acomodação social da atividade.
Presença física não basta
Outro ponto importante de sua fala foi a distinção entre presença física e inclusão real. Não basta matricular o estudante autista na aula de educação física e chamá-lo de estudante da inclusão se ele permanece isolado no canto da quadra, sem mediação pedagógica, sem acessibilidade comunicacional e sem participação significativa.
Essa afirmação converge com a visão de que a inclusão não pode ser apenas formal. Porém, no caso do autismo, é necessário acrescentar uma nuance: participação significativa não deve significar obrigatoriamente socialização intensa ou participação coletiva conforme a norma não autística.
Para algumas pessoas autistas, uma participação significativa pode ser coletiva. Para outras, pode ser mais individual, técnica, silenciosa, corporal, repetitiva ou mediada. O importante é que faça sentido para a pessoa, não apenas para a expectativa social externa.
Contra a normalização
Um dos trechos mais fortes da intervenção de Pedro Lucas foi sua crítica à ideia de que a pessoa autista deve aprender a parecer menos autista para ser aceita.
Essa crítica é extremamente importante. Ela corresponde diretamente a uma distinção defendida pela Organização Diplomática do Autistão: não basta aceitar a pessoa autista enquanto se tenta apagar ou reduzir sua natureza autística. É preciso avançar da aceitação das pessoas autistas para a aceitação do autismo em si, entendido como uma forma humana diferente de percepção, relação, sensibilidade e organização.
Pedro Lucas afirmou que a lógica unilateral de adaptação da pessoa ao contexto é perversa, porque impõe ao indivíduo a responsabilidade por uma barreira construída histórica e coletivamente. Essa ideia converge claramente com o conceito de barreiras socio-geradas: muitas dificuldades atribuídas à pessoa autista são produzidas ou agravadas por ambientes que não foram pensados para ela.
Qualificar mediações, não reduzir exigências
Outro ponto essencial foi a ideia de que não se trata de reduzir exigências, mas de qualificar mediações.
Essa frase é muito importante porque responde a uma objeção comum contra a acessibilidade. Algumas pessoas imaginam que adaptar seria “facilitar demais”, “baixar o nível” ou “não exigir nada”. Mas a questão não é essa.
Adaptar significa melhorar a comunicação, a previsibilidade, a organização da atividade, a mediação pedagógica, o suporte visual, a condução do grupo, a gestão do ruído, a clareza das regras, a possibilidade de pausa, a sensibilidade dos profissionais e a qualidade do ambiente.
Ou seja: acessibilidade não é ausência de aprendizagem. É condição para que a aprendizagem aconteça sem violência desnecessária.
Autismo como outra relação com linguagem e cultura
Pedro Lucas também afirmou que o autismo não é um defeito comportamental, mas uma outra forma de acessar a linguagem e a cultura.
Essa afirmação se aproxima fortemente da ideia de que o autismo não deve ser reduzido a um conjunto de déficits ou sintomas. A pessoa autista pode ter dificuldades reais, inclusive importantes, mas a natureza autística não deve ser tratada como erro a ser corrigido.
Essa distinção é decisiva para qualquer política pública séria sobre autismo. Sem ela, o risco é usar o esporte, a educação ou a terapia como instrumentos de normalização. Com ela, o esporte pode se tornar um meio de desenvolvimento respeitando a singularidade autística.
O estudante autista como participante de valor
Pedro Lucas concluiu defendendo que o estudante autista não deve ser um visitante tolerado no esporte, mas um participante de valor na comunidade.
Essa formulação é muito forte. Ela rejeita a inclusão como tolerância. Não se trata de “deixar entrar” alguém diferente por benevolência. Trata-se de reconhecer que essa pessoa pertence ao espaço e tem valor próprio.
Sua pergunta final também merece destaque: a questão não deve ser se o estudante autista é capaz de participar do esporte, mas que sociedade estamos produzindo quando negamos as condições necessárias de participação.
Um país inclusivo não é aquele em que algumas pessoas conseguem entrar apesar das barreiras. É aquele que decide coletivamente deixar de construir barreiras.
5. Intervenção de Lucas Forgiarini de Matos: esporte, família, universidade e autonomia

Em seguida, falou Lucas Forgiarini de Matos, técnico administrativo da Unijuí, bacharel em Educação Física e pessoa com síndrome de Down.
Lucas relatou sua trajetória de vida, sua relação com o esporte, sua formação universitária e o papel decisivo de sua família. Desde cedo, seus pais lhe ofereceram estimulação, apoio, acompanhamento e oportunidades. O esporte esteve presente em sua infância, em atividades como capoeira, judô, futebol, bocha, vôlei, natação, corrida, tênis de mesa e academia.
Ele também relatou sua ligação com o Esporte Clube São Luiz, sua participação como torcedor símbolo do Campeonato Gaúcho e sua trajetória até a graduação em Educação Física. Hoje atua na Unijuí, junto ao Laboratório de Educação Física, como instrutor na academia e na ginástica laboral.
Seu depoimento mostrou que o esporte pode ter um papel muito amplo: desenvolvimento corporal, autoestima, convivência, disciplina, escolha profissional, pertencimento universitário e realização pessoal.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
A fala de Lucas mostra algo muito importante: quando existem família, oportunidades, apoio institucional, educação inclusiva, acessibilidade e práticas esportivas, trajetórias antes consideradas improváveis podem se tornar possíveis.
Mas essa história também exige uma reflexão. Lucas teve pais presentes, apoio da universidade e oportunidades desde cedo. Isso deve ser celebrado. Porém, também devemos perguntar: quantas pessoas com síndrome de Down ou autistas não chegam a esses espaços porque suas famílias não dispõem de informação, recursos, tempo, energia, rede de apoio ou confiança suficiente?
As histórias de sucesso são fundamentais, mas não devem esconder as pessoas que continuam invisíveis. Uma sociedade acessível não pode depender apenas de famílias muito mobilizadas e bem apoiadas. Ela deve criar caminhos para que mais pessoas tenham oportunidades, mesmo quando suas famílias não conseguem abrir todas as portas sozinhas.
6. Futsal Down, autodefensoria e protagonismo
Intervenção de Cleunice Bohn de Lima
A intervenção de Cleunice Bohn de Lima, presidente da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down e representante da FutsalDown DF, trouxe uma dimensão coletiva e familiar muito importante.
Ela destacou o papel das pessoas com síndrome de Down falando por si mesmas, por meio da autodefensoria. Também explicou a importância do futsal Down como espaço de encontro, convivência e desenvolvimento.
Um ponto especialmente relevante foi sua observação sobre a adolescência. Muitas pessoas com deficiência intelectual começam a se isolar nessa fase, porque deixam de ser convidadas para passeios, festas, aniversários e encontros. O esporte coletivo pode então se tornar um espaço de pertencimento, não apenas para os atletas, mas também para as famílias.
Ela também chamou atenção para a participação das mulheres com síndrome de Down no esporte, lembrando que meninas e mulheres também precisam sair da invisibilidade e ocupar os espaços esportivos.
Intervenção de Mateus Roberto
Mateus Roberto, pessoa com síndrome de Down e atleta, falou sobre a importância do esporte em sua vida. Mencionou atletismo, natação, skate e futsal, além das medalhas conquistadas, das amizades feitas no esporte, do trabalho em equipe, da disciplina, da responsabilidade, da saúde e do bem-estar.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
Essa parte da audiência confirma o princípio “nada sobre nós sem nós”. Pessoas com síndrome de Down não devem ser apenas objeto de discursos de pais, profissionais ou gestores. Devem falar, ocupar a mesa, relatar suas experiências e participar da formulação das políticas que lhes dizem respeito.
Ao mesmo tempo, o tema do futsal Down mostra que a participação social pode ser muito benéfica para quem deseja esse tipo de prática. No caso do autismo, é importante manter a nuance: para algumas pessoas autistas, o coletivo pode ser positivo; para outras, o caminho mais acessível pode ser individual. A política pública deve respeitar essas diferenças.
7. Intervenção de Catia Dionéia de Souza Vieira: pertencimento e espaços que pareciam não ser “para eles”
Por videoconferência, Catia Dionéia de Souza Vieira, presidente do Conselho Estadual dos Direitos das Pessoas com Deficiência e diretora financeira da APADPEL, apresentou experiências desenvolvidas em Pelotas, no Rio Grande do Sul.
Ela falou sobre projetos ligados à síndrome de Down, como torcida organizada, futsal Down, karatê, ginástica rítmica e outras atividades. Sua fala foi forte ao afirmar que o esporte não é apenas lazer: é também reabilitação, inclusão e direito.
Catia destacou os impactos do esporte na saúde física, na saúde mental, na autoestima, na autonomia, na disciplina, no foco, na tolerância à frustração e na capacidade de tentar novamente.
Um dos pontos mais importantes foi a ideia de ocupar arquibancadas, estádios e espaços que durante muito tempo pareceram não ser destinados às pessoas com síndrome de Down. Essa observação é muito significativa, porque mostra que a barreira não é apenas física ou administrativa. Muitas vezes, a barreira é também simbólica: a pessoa ou sua família não se sente pertencente ao espaço.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
Esse ponto converge com a reflexão sobre as barreiras que aparecem antes mesmo do pedido de acesso.
Nem sempre existe uma proibição formal. Às vezes ninguém diz explicitamente “você não pode entrar”. Mas a sociedade comunica, por olhares, hábitos, ausência de representação, falta de acolhimento e experiências anteriores, que determinado lugar “não é para você”.
Essa barreira não deve ser entendida como fraqueza individual. Ela é um efeito das barreiras sociais, atitudinais, familiares, comunicacionais e institucionais. Por isso, a acessibilidade não deve apenas responder a pedidos já formulados. Ela deve criar condições para que o acesso se torne imaginável.
Isso pode ser feito por meio de dias abertos, visitas acompanhadas, sessões de experimentação, comunicação clara, primeira experiência sem pressão, acolhimento de famílias e formação dos profissionais.
8. Intervenção de Juarez Oliveira Sampaio: da pergunta “o que falta na pessoa?” à pergunta “quais barreiras a sociedade cria?”
A intervenção de Juarez Oliveira Sampaio, professor substituto da Faculdade de Educação Física da Universidade de Brasília, foi uma das mais importantes para a compreensão das barreiras.
Ele partiu de uma frase central: a forma como a sociedade compreende a deficiência remete à forma como as pessoas com deficiência são tratadas nessa sociedade.
Sua intervenção explicou a passagem de uma visão centrada na deficiência como problema individual para uma visão social, na qual a pergunta deixa de ser “o que há de errado com a pessoa?” e passa a ser “o que há de errado nessa sociedade?”
Essa mudança é decisiva. Em vez de procurar a falta apenas no corpo, na mente ou no comportamento da pessoa, é preciso identificar as barreiras que impedem sua participação: barreiras na escola, no clube, na academia, na praça, no trabalho, no lazer, na educação física, no esporte e na vida cotidiana.
Juarez também destacou que as pessoas com deficiência devem estudar juntas, brincar juntas, trabalhar juntas e conviver em grupos heterogêneos, sem isolamento. Em sua análise, o esporte não é apenas ferramenta de sociabilidade. Ele também transforma a consciência, envolve conceitos, estratégias, planejamento, comunicação, cooperação e desenvolvimento cognitivo.
Outro ponto importante foi a observação sobre a falta de dados. Se há milhões de pessoas autistas no Brasil, quantas são realmente alcançadas pelas políticas esportivas? Essa pergunta mostra que ainda há grande distância entre a existência de programas e a universalização do acesso.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
A fala de Juarez converge diretamente com a ideia de barreiras socio-geradas.
Quando uma pessoa autista sofre em determinado ambiente, não se deve concluir automaticamente que o problema é o autismo. É preciso perguntar quais perturbações sensoriais, mentais, comunicacionais, sociais ou organizacionais estão sendo impostas pela sociedade.
Essa perspectiva é essencial para corrigir o erro de colocar a deficiência inteiramente na pessoa. A pessoa pode ter características próprias, necessidades reais e apoios necessários. Mas a situação incapacitante surge frequentemente quando o ambiente não oferece condições de acesso, compreensão e participação.
Também é muito relevante a ideia de que o esporte não é apenas socialização. Ele envolve pensamento, antecipação, linguagem, emoção, estratégia, autocontrole, organização corporal e relação com a cultura. Isso abre um campo de reflexão muito mais rico sobre os benefícios das atividades físicas para pessoas autistas.
9. Intervenção de Erika Kokay: acessibilidade transversal, sensorial e afetiva
A deputada Erika Kokay, do PT-DF, trouxe uma contribuição importante ao ampliar o debate para a transversalidade das políticas públicas.
Ela destacou que a inclusão não pode ficar limitada ao esporte. Deve atravessar educação, saúde, cultura, urbanismo e outras áreas. Também afirmou que a acessibilidade não deve ser entendida apenas como acessibilidade arquitetônica. É preciso pensar em acessibilidade sensorial, afetiva e em várias formas de acessibilidade que permitam que a cidade comporte todas as potencialidades humanas.
Um ponto muito importante foi sua observação sobre os recreios escolares. Muitas vezes, a escola pode ter discurso de inclusão, mas os momentos de recreio, brincadeira e organização espontânea dos grupos continuam excluindo as crianças diferentes. O esporte e a ludicidade precisam ser pensados também nesses momentos.
Ela também ressaltou três elementos fundamentais: territorialidade, intersetorialidade e protagonismo. E reafirmou o princípio “nada de nós sem nós”.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
A intervenção de Erika Kokay converge fortemente com a ideia de um Plano Nacional do Autismo baseado na acessibilidade.
O autismo não pode ser tratado apenas pela saúde, pela educação ou pelo esporte isoladamente. A acessibilidade autística precisa ser transversal, envolvendo todos os contextos onde as pessoas autistas vivem, aprendem, sofrem, trabalham, descansam, se deslocam ou tentam participar.
A noção de acessibilidade sensorial é particularmente importante para o autismo. Ruído, luz, temperatura, imprevisibilidade, agitação, excesso de pessoas, comunicação confusa e ambientes hostis podem gerar sofrimento intenso. Portanto, uma política pública séria precisa considerar a experiência sensorial e mental das pessoas autistas.
10. Intervenção de Rosinha da Adefal: formação, paradesporto e caminhos institucionais

A intervenção de Rosinha da Adefal, atual Diretora de Relações Institucionais do Comitê Brasileiro de Clubes Paralímpicos — CBCP, trouxe uma contribuição concreta sobre formação profissional, currículo universitário, futebol e paradesporto.
Ela destacou que é necessário capacitar os profissionais de Educação Física já formados, mas também alertou para uma questão anterior: a formação inicial nas universidades. Segundo sua intervenção, é preciso discutir como os cursos de Educação Física abordam as deficiências, porque muitas vezes o contato com esse tema durante a graduação ainda é superficial.
Essa observação é importante porque a acessibilidade não pode depender apenas da boa vontade individual de alguns profissionais. Se os futuros professores e profissionais de Educação Física não recebem formação suficiente, muitos espaços esportivos continuarão excluindo pessoas com deficiência, mesmo sem intenção explícita de excluir.
Rosinha também propôs que entidades ligadas ao futebol, como a CBF e a FIFA, sejam provocadas a apoiar mais diretamente as diferentes modalidades de futebol praticadas por pessoas com deficiência: futebol Down, futebol para pessoas com nanismo, amputados, cegos, pessoas com paralisia cerebral e usuários de cadeira motorizada.
Em seu depoimento, Rosinha lembrou também sua própria trajetória. Explicou que começou a se compreender como pessoa com deficiência aos 15 anos, quando chegou à ADEFAL e se tornou atleta. Até então, era uma filha muito protegida, mas o esporte lhe mostrou o mundo, os direitos, a cidadania e as diferenças.
Ela relatou ainda que, embora tenha estudado em escola regular, nunca participou verdadeiramente das atividades de Educação Física. Era colocada de fora ou direcionada a atividades como dama e xadrez. Por isso, ao ver Lucas Forgiarini de Matos formado em Educação Física e atuando profissionalmente, reconheceu o avanço histórico, mas também insistiu que ainda é muito pouco e que é necessário avançar mais.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
A fala de Rosinha confirma que a acessibilidade precisa começar na formação. Um profissional não preparado pode reproduzir exclusão mesmo quando deseja incluir. Por isso, a transformação dos currículos e da formação inicial é parte essencial de qualquer política séria de acessibilidade.
Ela também mostra que a presença formal em uma escola regular não garante participação real. Uma pessoa pode estar “incluída” no sistema escolar e, ao mesmo tempo, ser excluída de determinadas atividades, como a Educação Física. Essa distinção é muito importante para o autismo: não basta estar matriculado, presente ou tolerado. É preciso poder participar de modo significativo e acessível.
Ao final da audiência, houve também uma conversa entre Rosinha da Adefal e o representante da Organização Diplomática do Autistão. Eles já haviam se encontrado doze anos antes, em 2014, durante o Fórum Mundial de Direitos Humanos, no Marrocos, em um contexto ligado aos direitos das pessoas com deficiência.
Naquele evento, sua intervenção em português havia produzido um efeito inesperado. Pela clareza de sua fala, contribuiu para tornar o Brasil mais próximo, mais compreensível e mais concretamente imaginável.
Essa lembrança foi mencionada apenas como uma nota de continuidade institucional: Marrocos, 2014; primeira vinda ao Brasil em 2016 para o Primeiro Encontro Brasileiro das Pessoas Autistas, em Fortaleza; e reencontro em Brasília, em 2026, em uma audiência pública sobre esporte, síndrome de Down e autismo.
A conversa abriu a possibilidade de um diálogo posterior. Sua experiência como ex-deputada federal, ex-gestora nacional na área dos direitos da pessoa com deficiência e atual representante institucional no campo do paradesporto poderá ser útil para compreender melhor os caminhos possíveis para uma proposta de Plano Nacional do Autismo no Brasil.
11. Outras contribuições relevantes
Intervenção de Oswaldo Freire
Oswaldo Freire, pesquisador internacional de autismo, falou sobre atividades como natação, equoterapia, judô, caminhadas, atletismo e futebol adaptado. Também destacou os custos enfrentados pelas famílias, especialmente mães solo, e defendeu que o acesso ao esporte não seja visto como privilégio, mas como direito relacionado à saúde, cidadania e participação social.
Intervenção de Bruno Ortiz Porto
Bruno Ortiz Porto, diretor-geral da Secretaria do Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul e pai atípico, relatou a experiência do programa Todos no Jogo, voltado a pessoas com deficiência intelectual. Sua fala foi importante porque mostrou que políticas públicas podem nascer da combinação entre experiência familiar, sensibilidade política e capacidade administrativa.
Intervenção de Dieter Siedenberg
Dieter Siedenberg, reitor da Unijuí, chamou atenção para as dificuldades gerais de acesso ao ensino superior e para os obstáculos ainda maiores enfrentados por pessoas com deficiência. Sua fala reforçou a importância da universidade como espaço de responsabilidade social, não apenas de formação acadêmica tradicional.
Intervenção de Carlos Júnior
Carlos Júnior, vereador de Pelotas, falou sobre a chegada do TEAtivo a Pelotas, sobre o futsal Down e sobre a necessidade de estrutura para eventos e programas esportivos locais.
Convergência com os princípios da Organização Diplomática do Autistão
Essas intervenções mostram que o tema não pertence a um único nível de governo. Ele envolve União, estados, municípios, universidades, famílias, clubes, federações, projetos sociais e pessoas diretamente interessadas.
Isso reforça a necessidade de uma política transversal, articulada e acessível. O esporte pode ser um campo prático para testar formas de cooperação interinstitucional que também seriam necessárias em um Plano Nacional do Autismo.
12. Intervenção de Washington “Coração Valente”: inclusão como direito e como presente recíproco
Um dos momentos mais significativos da audiência foi o depoimento de Washington Stecanela “Coração Valente”, ex-atleta de futebol e ex-deputado federal.
Washington explicou que não é pai atípico, mas que pode se considerar um “vizinho atípico”, por causa de sua convivência com Guilherme, seu vizinho com síndrome de Down.
Ele contou que muitas pessoas imaginavam que ele estava ensinando Guilherme a jogar futebol. Mas, na realidade, segundo seu depoimento, ele próprio estava aprendendo com Guilherme. Aprendeu sobre garra, desafio, respeito, carinho e diferença. Disse que a convivência com Guilherme e com pessoas com síndrome de Down e pessoas autistas o tornou um homem melhor e um cidadão melhor.
Essa inversão é muito importante. A lógica habitual apresenta a pessoa sem deficiência como aquela que ajuda, ensina, inclui ou concede uma oportunidade. Washington mostrou outra coisa: a pessoa com deficiência não é apenas beneficiária. Ela também pode ensinar, transformar, humanizar e revelar algo que a sociedade precisa reaprender.
Ele concluiu com uma afirmação essencial: a inclusão não é um favor; a inclusão é um direito.
A conversa posterior com o representante da Organização Diplomática do Autistão
Após sua intervenção, o representante da Organização Diplomática do Autistão conversou com Washington. Ele explicou que havia sido especialmente tocado pelo depoimento sobre Guilherme, porque aquele relato mostrava algo que vai além da inclusão entendida como obrigação jurídica ou política pública.
O representante explicou que, ao ouvir a história, pensou que ela poderia levar a uma formulação complementar: a inclusão não é um favor; é um direito. Mas, quando é vivida de verdade, pode também tornar-se um presente recíproco.
Essa ideia não substitui a noção de direito. Pelo contrário, ela a aprofunda. A inclusão nunca deve ser apresentada como caridade, benevolência ou favor. Porém, quando a convivência é real, respeitosa e humana, ela pode transformar também quem acreditava estar apenas ajudando.
Na mesma conversa, o representante apresentou a Washington uma distinção fundamental utilizada pela Organização Diplomática do Autistão: a diferença entre o autismo como natureza humana e os transtornos, dificuldades ou sofrimentos associados à vida das pessoas autistas em ambientes inadequados.
Para explicar essa distinção, utilizou a imagem de uma noz. A casca representa as dificuldades, os sofrimentos, as barreiras, os mal-entendidos e as perturbações. O miolo representa a natureza autística em si, com sua coerência própria e sua forma particular de relação com o mundo. Quando se confunde a casca com o miolo, não se compreende corretamente o autismo.
Essa distinção permite falar da natureza autística sem negar as dificuldades reais. Também permite compreender que uma parte importante do sofrimento das pessoas autistas não vem da natureza autística em si, mas das perturbações socio-geradas: sensoriais, mentais, comunicacionais, administrativas, relacionais ou institucionais.
O representante explicou que reduzir o sofrimento das pessoas autistas exige corrigir muitas violações da harmonia natural produzidas pelo sistema social: ruídos excessivos, incoerências, falsidades, confusões, pressões artificiais, injustiças, ambientes agressivos e normas sociais desnecessariamente hostis.
Ele também explicou que a sociedade começa, lentamente, a passar de uma lógica de normalização, correção ou cura das pessoas autistas para uma lógica de aceitação das pessoas autistas. Mas o passo seguinte, mais profundo, é aceitar também o autismo em si, isto é, não considerar a natureza autística como um erro a ser apagado.
Nessa perspectiva, a acessibilidade autística consiste em tornar a sociedade mais amigável para as pessoas autistas: mais coerente, mais previsível, mais honesta, mais calma, menos agressiva, menos confusa, menos baseada em implicações invisíveis e menos hostil às formas autísticas de percepção, comunicação e participação.
O representante apresentou ainda a ideia de que o autismo pode trazer uma contribuição humana e social importante: por sua sensibilidade, sua necessidade de coerência e sua reação intensa às perturbações, muitas pessoas autistas podem revelar problemas sociais que a maioria das pessoas acaba aceitando ou deixando de perceber.
O autismo pode, assim, funcionar como um revelador das incoerências, absurdos, injustiças, agressões e violações de harmonia produzidas pelo sistema social, sem que isso reduza as pessoas autistas a uma função ou a uma utilidade.
A partir do depoimento de Washington sobre Guilherme, o representante sugeriu também uma reflexão complementar: a convivência com pessoas com síndrome de Down pode, em muitos casos, revelar à sociedade dimensões humanas frequentemente esquecidas, como o carinho, a paciência, a simplicidade relacional, a dignidade que não depende da performance e o respeito pelo ritmo de cada pessoa.
Essa ideia deve ser formulada com prudência, sem atribuir características universais às pessoas com síndrome de Down e sem reduzir pessoas reais a uma imagem romântica ou estereotipada. Mas a convivência real pode revelar à sociedade dimensões humanas que ela frequentemente perde quando se torna excessivamente competitiva, produtivista, normativa e orientada pela performance.
Washington recebeu essas reflexões com interesse. A conversa mostrou que uma audiência sobre esporte pode abrir caminhos muito mais amplos: autismo, síndrome de Down, acessibilidade, direito, convivência e transformação social.
13. Conversa com Danrlei de Deus Hinterholz: Plano Nacional do Autismo e acessibilidade
Depois da conversa com Washington, o representante da Organização Diplomática do Autistão também conversou com o deputado Danrlei de Deus Hinterholz, responsável pela proposição e condução da audiência.
Na conversa, o representante procurou explicar que programas, vagas, recursos e capacitações são importantes, mas que a questão da acessibilidade precisa ser vista de modo ainda mais amplo.
A ideia central apresentada foi que pessoas autistas, pessoas com síndrome de Down e outras pessoas com deficiência devem poder acessar práticas físicas e esportivas em diferentes contextos, inclusive em espaços comuns, sempre que possível, e não apenas em programas especializados ou vagas separadas.
Foi usado o exemplo simples de uma pessoa com síndrome de Down que deseja entrar em uma piscina para nadar, brincar ou apenas experimentar a água. A barreira pode não estar em uma incapacidade física. Pode estar no olhar dos outros, na falta de acolhimento, no receio da família, na ausência de convite, na falta de profissionais preparados ou na sensação de que aquele espaço “não é para ela”.
O representante explicou também que a Organização Diplomática do Autistão gostaria de apresentar, futuramente, uma proposta de Plano Nacional do Autismo para o Brasil, baseada especialmente em uma concepção ampla de acessibilidade.
O deputado compreendeu imediatamente a ideia. Ao ouvir a expressão “Plano Nacional”, ele próprio associou a proposta ao autismo, mostrando que havia entendido o sentido da conversa. Quando foi mencionado que o plano deveria ser baseado na acessibilidade, ele também aprovou essa orientação.
Ao final, em contexto informal, Danrlei manifestou abertura ao diálogo, dizendo: “pode contar comigo”.
Essa conversa foi informal, mas significativa. Ela não deve ser apresentada como compromisso oficial já formalizado, mas como uma abertura institucional importante para continuar o diálogo sobre esporte, acessibilidade e uma possível política nacional mais ampla para o autismo no Brasil.
14. Síntese dos principais eixos revelados pela audiência
14.1 O esporte pode trazer benefícios importantes
Os depoimentos mostraram benefícios físicos, emocionais, sociais, cognitivos e familiares. O esporte pode contribuir para saúde, autoestima, autonomia, coordenação, disciplina, concentração, regulação, pertencimento e bem-estar.
14.2 Mas o direito ao esporte não depende desses benefícios
O acesso ao esporte não deve ser condicionado à prova de que a pessoa será melhorada. Mesmo sem objetivo terapêutico, competitivo ou socializante, a pessoa deve poder acessar atividades físicas e esportivas.
14.3 A socialização não deve ser obrigatória para pessoas autistas
O esporte pode favorecer vínculos, mas nem toda pessoa autista busca participação social intensa. Políticas públicas devem respeitar esportes individuais, práticas silenciosas, atividades previsíveis e formas próprias de participação.
14.4 Programas especializados são úteis, mas não suficientes
TEAtivo, Vencer pelo Esporte, Futsal Down, programas locais e projetos especializados são importantes. Porém, eles devem ser acompanhados por uma transformação dos espaços comuns: escolas, clubes, piscinas, academias, quadras, parques e projetos comunitários.
14.5 As barreiras não estão apenas na pessoa
As intervenções de Pedro Lucas, Juarez, Erika Kokay e outros participantes convergem para a ideia de que muitas barreiras são sociais, pedagógicas, sensoriais, comunicacionais, familiares, institucionais e atitudinais.
14.6 A família não pode ser a única porta de entrada
Muitas histórias de sucesso dependem de famílias que dispõem de tempo, informação, recursos e redes de apoio. Isso deve ser reconhecido, mas também problematizado. Uma política pública acessível não pode depender apenas da capacidade familiar de abrir portas.
14.7 Ninguém deveria precisar ser campeão para ser reconhecido
As conquistas esportivas devem ser celebradas. Mas a dignidade da pessoa não pode depender de medalhas, títulos, superação extraordinária ou reconhecimento público.
14.8 A inclusão pode transformar também quem inclui
O depoimento de Washington sobre Guilherme mostrou que a convivência real com a diferença pode transformar não apenas a pessoa com deficiência, mas também quem está ao redor.
14.9 O esporte pode ser uma porta de entrada para um Plano Nacional do Autismo
O esporte revela de forma concreta a necessidade de acessibilidade, formação, intersetorialidade e mudança de ambiente. Por isso, pode contribuir para a reflexão sobre um futuro Plano Nacional do Autismo para o Brasil, baseado na acessibilidade.
Conclusão: do esporte à acessibilidade em toda a sociedade
A audiência pública da Comissão do Esporte mostrou que o esporte pode ser muito mais do que uma prática física. Pode ser saúde, educação, cultura, convivência, autonomia, direito, pertencimento e transformação humana.
Mas também mostrou que o esporte só realiza esse potencial quando as barreiras são enfrentadas. Não basta afirmar que o esporte inclui. É preciso perguntar quem consegue entrar, quem permanece fora, quem nunca se imagina pertencendo, quem depende de condições familiares favoráveis, quem precisa parecer “normal” para ser aceito e quem só recebe reconhecimento quando se torna campeão.
Para as pessoas autistas, a questão é ainda mais profunda. O desafio não é apenas incluí-las em espaços existentes, mas tornar esses espaços mais compreensíveis, previsíveis, sensorialmente suportáveis, comunicacionalmente acessíveis e respeitosos da natureza autística.
Para as pessoas com síndrome de Down, o esporte pode abrir caminhos de saúde, pertencimento, autonomia, visibilidade e reconhecimento, desde que não se transforme em mais uma forma de exigir desempenho, superação ou excepcionalidade.
O esporte pode ser uma porta de entrada para uma sociedade mais acessível. Mas essa porta precisa ser aberta de verdade: não apenas por programas especializados, mas também pela transformação dos ambientes comuns, pela formação dos profissionais, pela escuta das próprias pessoas interessadas, pela articulação entre políticas públicas e pela compreensão de que a inclusão não é favor.
A inclusão é direito. E quando é vivida de forma real, pode também tornar-se um presente para toda a sociedade.
